Pe. Patrick Clarke está entre os dez que recebem do presidente da Irlanda o prêmio de reconhecimento aos serviços prestados por irlandeses no exterior – por seu trabalho com os pobres de uma favela em São Paulo.

por Tom Hennigan, The Irish Times
publicado em 16/11/2019

 

Andar pela favela da Vila Prudente com o Pe. Patrick Clarke pode ser meio demorado.

Não que essa seja uma das maiores favelas de São Paulo, ou que o dublinense esteja indo mais devagar agora que passou dos oitenta. Seus passos largos percorrem com firmeza as vielas tortuosas, às vezes tão estreitas que só dá para ver uma nesga de céu acima da cabeça

É que ele fica parando para cumprimentar e apertar a mão de todos que não o param primeiro para uma palavrinha rápida. E depois de quatro décadas trabalhando com uma das populações mais carentes da maior cidade do hemisfério sul, parece que todos os moradores da Vila Prudente conhecem esse homem, que chamam de “Patrique”.

Pe. Patrick: “Todo o sistema capitalista é uma sofisticada máquina de sedução. Você acha que está sendo libertado por coisas que, na realidade, estão escravizando-o.”

“Todo mundo aqui adora o Padre Patrick. Ele é muito dedicado ao povo, não importa qual a religião deles”, diz a aposentada Audenora Ferreira Espindula. Pergunte aos moradores o que ele fez para receber tanto carinho e alguns vão citar o centro cultural local; outros, o sítio onde as crianças do lugar costumam ter seu primeiro encontro com a natureza, ou talvez a creche comunitária que hoje cuida de 150 crianças enquanto seus pais trabalham longas jornadas com salários baixíssimos. Ele teve um papel fundamental na criação de todos eles, muitas vezes com a ajuda de doações de seu país de origem.

Esse trabalho de toda uma vida, que é representativo de uma notável geração de missionários irlandeses, está virando história, mas será reconhecido na quinta-feira (21 de novembro), quando o padre espiritano será um dos dez que receberão este ano, do presidente Michel D. Higgings, o Presidential Distinguished Service Award for the Irish Abroad.

Clarke nasceu em 1937 no bairro The Liberties, em Dublin, e foi criado numa Igreja Católica conservadora. Quando foi ordenado em 1965 – depois de estudar filosofia na UCD (University College Dublin) e concluir um mestrado em Boston – essa igreja estava apenas começando a se adaptar às reformas do Concílio Vaticano II.

Mas quando chegou ao Brasil em 1977, ele encontrou uma instituição totalmente diferente. Arrebatada pelo entusiasmo da teologia da libertação, com sua famosa “opção pelos pobres”. Se a igreja na Irlanda era conservadora, no Brasil ela era radical numa época em que isso era perigoso.

O país ainda estava sob o domínio de uma repressora ditadora militar de direita. Se na vizinha Argentina a hierarquia católica oferecia apoio moral à sua ditadura, no Brasil as coisas eram bem diferentes. Vários bispos estavam entre os maiores críticos do regime e os generais viam com suspeita padres e freiras católicos abandonarem suas paróquias para viver e se organizar em comunidades eclesiais de base entre favelados nas cidades ou camponeses sem terra e povos indígenas na zona rural.

Como muitos missionários irlandeses de sua geração que vieram trabalhar nessa igreja latino- -americana, Clarke se juntou à migração “do centro para a periferia”. Escolheu a Vila Prudente como centro de sua área pastoral e acredita que o período em que sua família viveu num gueto irlandês em Manchester ajudou a prepará-lo para seu trabalho com os favelados, vistos por muitos moradores mais privilegiados de São Paulo com uma mistura de desprezo e medo.

“Acho que isso sempre esteve em mim, ser um desfavorecido”, afirma. “Mas não sei se é por causa de Manchester que me identifiquei tanto aqui, porque reproduz, em certo sentido, uma experiência minha de sofrer com uma noção preconcebida dos outros sobre quem você é.”

Mesmo assim, demorou para ele conquistar a confiança dos moradores da Vila Prudente. Audenora o elogia agora, mas nas décadas de 1970 e 1980 seu pai era uma pessoa muito influente na associação dos moradores da comunidade, um órgão que atuava como olhos e ouvidos do regime dentro da comunidade. Essas pessoas viam os missionários gringos que apareciam com suspeita, como uma ameaça ao seu controle sobre a população local.

Ao decidir como se aproximar da comunidade, Clarke seguiu o conselho do grande educador brasileiro Paulo Freire, que ele conheceu num simpósio em Paris antes de vir ao Brasil. Os dois homens firmaram uma grande amizade que se aprofundou depois que Freire retornou do exílio, em 1979. “Ele me disse que eu tinha que ser como uma mosca na parede, primeiro: – Não chegue querendo resolver tudo.”

Freire pediu que o jovem missionário lhe trouxesse uma lista com as 22 palavras que ele mais ouvia na favela. “Quando levei, ele disse: – É nesse universo que você tem que se encaixar, agora.”

A partir desses primeiros elementos, Clarke e seus colegas foram conquistando a confiança dos moradores, penetrando em seu universo e falando a sua língua.

O primeiro grande sucesso foi um projeto épico que levou cinco anos, para instalar um sistema de esgoto na favela. “Os ratos passavam correndo entre os pés da gente, e quando eu visitava as casas das pessoas, procurava sentar perto da porta por causa do mau cheiro que subia pelo chão de terra”, lembra ele.

O problema é que os moradores não esperavam nada diferente, nem achavam que mereciam mais. Os missionários tinham que abordar o assunto indiretamente para mudar sua atitude. “Então eu perguntava se os ratos já tinham sido batizados. Esse tipo de coisa nunca tinha acontecido com eles antes.”

O sucesso do projeto de esgoto ganhou a aceitação deles e deu o incentivo que faltava para impulsionar os programas de alfabetização de adultos, a criação do centro cultural e da creche, entre uma série de outros projetos sociais.

No fundo, todos tinham o mesmo objetivo: dar mais autonomia aos socialmente excluídos de São Paulo. A meta não era apenas proporcionar aos moradores da favela os serviços sociais a que já tinham direito pela constituição, e sim equipá-los com os meios necessários para se organizar e lutar por eles.

Hoje, entre os ativistas do Movimento de Defesa do Favelado, que Clarke ajudou a fundar, estão universitários que tiveram sua consciência política despertada em grupos de jovens organizados nas favelas pelos missionários. Para muitos brasileiros conservadores, essas atividades são consideradas subversivas.

Mas, ultimamente, o entusiasmo despertado pela geração da teologia da libertação vem diminuindo. Na área pastoral de Clarke, é mais difícil envolver os jovens no ativismo do que era anos atrás. “Antes, conseguíamos reunir 50 ou 60 num encontro de jovens. Agora, às vezes você consegue dois.”

Em parte, isso se deve à inclusão de comunidades como a da Vila Prudente no patamar inferior da cultura de consumo contemporânea, algo que seus pais sequer podiam imaginar. “Muitos agora acham que ser capaz de comprar coisas é uma forma de inclusão”, diz ele. “Mas todo o sistema capitalista é uma sofisticada máquina de sedução. Você acha que está sendo libertado por coisas que, na realidade, estão escravizando-o.”

Parte da geração da teologia da libertação culpa a virada conservadora do Vaticano durante os papados de João Paulo II e Bento XVI por tirar a energia da igreja latina. Os dois papas consideravam a teologia da libertação impregnada pelo marxismo ateu, e muitos padres e freiras na América Latina deixaram a igreja para se concentrar no ativismo político e social, alguns até pegando em armas.

Embora ainda seja um ativista rebelde, Clarke acredita que a questão é saber como ter uma dimensão social que não dilua a teologia. “É conseguir o equilíbrio certo. O trabalho social é muito importante, mas não estou aqui para fazer trabalho social. Estou aqui para andar junto com as pessoas e o Evangelho é fundamental para isso.”

Pe. Patrick Clarke é cumprimentado na rua por uma de suas dedicadas paroquianas.

Enquanto se despede de sua congregação, após sua última missa dominical antes da longa viagem até o Áras (residência oficial do presidente irlandês), esse veterano de uma geração de missionários irlandeses profundamente engajada, mas envelhecida, não está muito inclinado a insistir no fato de que, ao menos num futuro próximo, não haverá ninguém da Irlanda seguindo seus passos por causa da falta de vocações em seu país.

“Isso não me incomoda muito”, afirma com naturalidade. O trabalho na Vila Prudente vai continuar. O novo colega de Clarke é um jovem padre espiritano das ilhas de Cabo Verde que realizou parte de sua formação na Irlanda. “Está tudo interligado”, diz ele, citando o santo recém-canonizado Oscar Romero, um herói para muitos adeptos da teologia da libertação.

“Ele dizia que nada do que fazemos jamais está completo. Sua natureza é ser apenas um trampolim para algum outro lugar ou outra pessoa e, com o tempo, o que você tentou fazer tem seu valor, mas não pense que terminou o trabalho. É triste, mas ao mesmo tempo libertador. Por que alguém ia querer fingir ser a resposta definitiva? Isso o deixaria sério demais.”

E com isso ele coloca o boné da GAA (confederação desportiva irlandesa) e vai descendo a Rua da Igreja, assim chamada por causa da igreja que ele ajudou a construir, numa rua que ajudou a calçar, cumprimentando a todos por onde passa.

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